A parábola da vida e da morte da mãe feliz

mc3a3eCompartilhamos com os leitores este belíssimo conto inspirado na cultura árabe. É sempre reconfortante ver que o respeito e o amor pela mãe é inerente ao espírito humano. No entanto, é igualmente interessante observarmos como faz falta a certeza de fé proporcionada pela visão cristã da morte, que não é um “nunca mais”, e sim um “até breve”.

A jovem mãe ia, enfim, iniciar a grande jornada pela estrada incerta da vida. E perguntou, muito tímida, ao Anjo Bom:

– É longo o caminho a percorrer? Serei feliz com meus filhos que tanto amo?

Respondeu-lhe, sereno e terno, o Anjo Bom:

– O caminho que se abre diante de ti é longo, muito longo, semeado de angústias, recortado de dores e cheio de fadigas. Antes de alcançares a curva extrema, virá a impiedosa velhice ao teu encontro. Ainda assim, asseguro-te que os teus derradeiros passos serão mais cheios de alegria e encantamento que os primeiros.

E a jovem mãe partiu. Sentia-se extremamente ditosa em companhia de seus filhinhos. A existência lhe decorria sob o véu de um delicioso encantamento. Brincava com os pequeninos; colhia para eles, unicamente para eles, as mais lindas flores que adornavam os caminhos do mundo. E o sol brilhava, inundando a terra com a benção de suas torrentes de luz. E o dia se escoava tão sereno que a jovem mãe murmurou, fitando enternecida o céu azul:

– Nada haverá, Senhor, de mais belo! Jamais serei, na companhia de meus filhos, mais feliz do que sou agora!

A noite veio, porém, alongando sobre a terra o seu manto pesado e sombrio. Nuvens disformes amontoaram-se no firmamento: desabou o temporal. O vento norte uivava, como um chacal faminto pelos areais sem fim. Os pequeninos, tolhidos de frio, trêmulos de medo, soluçavam. A jovem mãe destemida aconchegou-os a si, agasalhando-os sob sua túnica, e as crianças, bem abrigadas e protegidas, murmuravam docemente:

– Ó mãezinha querida! O medo já não mais se abriga em nossos corações! A teu lado, mãezinha adorada, nenhum mal nos alcançará!

E a jovem mãe exclamou num ímpeto de alegria:

– Isto, para mim, ó Deus, é mais belo e grandioso que a jornada pelo caminho tranquilo, sob o esplendor do dia! Sinto-me realmente feliz! Mais feliz do que ontem! Contra a tormenta protegi meus filhos e lancei, para sempre, em seus corações, a semente do destemor e da coragem!

Passou a noite. Louvado seja Deus! A noite passou. Raiou, esplêndida e balsâmica, a alvorada. A estrada, naquele terceiro dia, se estendia ladeirenta pelo dorso de uma montanha perigosa. Era forçoso subir. Subir muito. Os pequeninos sentiam-se fatigados; a jovem mãe, quase desfalecida de sede e de cansaço. Fazendo, porém, das fibras, coração, mostrava-se animosa e, sem cessar, dizia aos filhos:

– Vamos! Para cima! Breve chegaremos ao alto! Vamos! Subamos sempre! Subamos!

E essas palavras multiplicavam as energias que o esforço constante e excessivo queria aniquilar. E as crianças iam subindo, subindo… Chegaram, finalmente, ao cimo da montanha. A jovem mãe os enlaçou, então, em seus braços carinhosos. E eles lhe disseram:

– Ó mãezinha querida, sem ti não teríamos conseguido vencer estas escarpas, contornar estes abismos e levar a bom termo esta jornada. Sem o teu auxilio incomparável, sucumbiríamos em meio da escalada. Sabemos, agora, como superar os grandes tremedais da sorte!

E a delicada mãe, ao repousar naquele dia, semimorta, exclamou arrebatada:

– Ó Deus clemente e justo! O dia de hoje foi para mim melhor ainda que o de ontem! Sinto-me mais feliz! Mais feliz do que nunca! Ensinei meus filhos a enfrentar, bravamente, os reveses e as tristezas da vida!

No quarto dia, estranhas nuvens cor de chumbo cruzaram o céu. Um rugido surdo, que parecia partir das profundezas ignoradas da terra, enchia o ar, soturnamente. A imensa montanha, de súbito, tremeu: rochas descomunais se desprenderam e rolaram com estrondo para os abismos apavorantes.

Era o cataclismo que começava. Tão altas e densas erguiam-se as colunas de pó que chegavam a cobrir a face do sol. E as trevas da noite desceram sobre a terra em pleno dia. A morte, com suas garras de fogo, rondava por toda a parte. Nem tenda havia, nem caverna ou abrigo, onde um ser humano pudesse ter segura a curta vida. As crianças, presas de excruciante pavor, choravam. E a jovem mãe, serena e forte, lhes dizia:

– Em Deus confiai, meus filhos! Olhai para cima! Deus não nos abandonará!

E os pequenos confiaram em Deus. E Deus os livrou da fúria infrene. Ao findar aquele dia, a mãe exclamou em êxtase, erguendo humilde para os céus os seus olhos cheios de gratidão:

-Este foi o dia melhor da minha vida, Senhor! Ensinei meus filhos a crer em Vós, a confiar em Vós, ó Deus Misericordioso!

Amontoaram-se os dias; sucederam-se os meses; os anos passaram… E a mãe, toda entregue à felicidade e ao bem-estar dos filhos, não sentiu o rolar intérmino do tempo. Os seus formosos cabelos fizeram-se brancos como a neve; o brilho desapareceu-lhe dos olhos; a face tracejou-se-lhe de rugas. Era, enfim, a velhice que chegava. Mas que encanto para a sua vida de mãe! Os filhos crescidos, fortes, cheios de alegria, pareciam redobrar neles a boa seiva que dela partira. Ela, a mãe feliz, curvada ao peso da vida, já mal podia caminhar. Os filhos, porém, ali estavam, ao seu lado, para servi-la, honrá-la e obedecer-lhe!

O mais velho dizia-lhe, carinhoso e com desbordante afeto:

– Mãezinha! Quero hoje carregar-te em meus braços! Estás tão fraca e cansada!

Protestava o mais moço com entusiasmo:

– Que egoísmo é esse, meu caro! Hoje é meu dia! Eu, sim, é que irei carregar a mãezinha querida!

E a mãe feliz sorria a um, abraçava a outro; beijava a ambos.

Que bons e delicados lhe eram os filhos! Sim, para o coração materno, fizera pausa o tempo. Eles eram, ainda, os seus filhinhos, os filhinhos ternos, estremecidos… E ela sentia-se tão feliz, tão feliz, que não achava palavras com que agradecer a Deus!

Um dia, afinal, a mãe ditosa reuniu os filhos e disse-lhes, num fiozinho de voz:

– A minha tarefa está finda, meus filhos. Vou deixar-vos. Irei para longe, para muito longe daqui…

O mais velho dizia-lhe, carinhoso:

– Pois iremos contigo, mãezinha! Ninguém nos poderá separar de ti!

Ela, não sustendo as lágrimas e deixando-as deslizar, insistiu com meiguice:

– Não, querido. Dessa vez terei de ir só. Sozinha partirei.

E eles, afeitos à obediência, mais uma vez obedeceram. E a boa velhinha partiu. Foi indo, vagarosamente, toda acurvada, trêmula… Diante dela, no extremo do caminho, abriram-se dois largos portões que refulgiam cheios de luz. Entrou. Uma voz, que mais parecia um cântico de glória, lhe dizia com infinita mansuetude:

– Vinde a Mim, ó mãe feliz! Vinde a Mim!

Os filhos, que a vigiavam de longe, viram-na, de repente, desaparecer:

– Ela partiu para sempre! Não a veremos nunca mais! Nunca mais! Mas a santa lembrança dessa mãe querida viverá para sempre em nossos corações! Eduquemos nossos filhos como ela nos educou: na bondade, na obediência, no amor…

E no silêncio da tarde que caía, lentamente, ouvia-se o sussurro de um chorar longínquo. Calaram-se todos. Que seria?

Era o filho mais moço. De rosto entre as mãos, inconsolável, ele soluçava de joelhos, à margem da vida, com a dor da saudade a escurecer-lhe o coração:

– Minha mãe! Minha mãe querida!

Fonte: http://pt.aleteia.org/2016/05/17/a-parabola-da-vida-e-da-morte-da-mae-feliz/