O luto no Budismo

Como as diferentes filosofias e tradições encaram a morte e o luto? O que temos a aprender com elas? Iniciamos essa série de reflexões com um bate-papo com a Bel Cesar* que pratica a psicoterapia sob a perspectiva do Budismo Tibetano e dedica-se ao acompanhamento daqueles que enfrentam a morte desde 1990, além de ser mãe do lama Michel Rinpoche.

Foto: Pixabay

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Como se deu o seu envolvimento com a religião budista?

O budismo não é uma religião, mas um sistema de auto-cura e auto-realização: um método profundo de ciência interior. É uma filosofia que nos ensina sobre o rumo das mudanças, tanto da vida cotidiana como da nossa morte. Em abril de 1987, organizei, a pedido de um casal de amigos, a primeira visita do lama Gangchen Rinpoche ao Brasil. Nossa conexão foi imediata e, logo no ano seguinte, inaugurei o primeiro Centro de Budismo Tibetano no Ocidente – estava me formando em Psicologia, mas já havia compreendido que seria o budismo a base de tudo. Em 1992 passei a trabalhar sob a perspectiva budista com o atendimento psicoterapêutico e a acompanhar pacientes que enfrentam a morte.

Qual é a visão do Budismo sobre a morte?

A morte não é compreendida como um evento isolado, mas como uma mudança de um ciclo infindável de mudanças. Ela é uma realidade natural, uma oportunidade muito especial de transformarmos nossa mente confusa num estado mental de profunda paz. Nesse sentido, a morte não é vista como algo mórbido e temido, mas como uma bela oportunidade de crescimento espiritual.

A passagem de um ciclo a outro é conhecida pelo termo tibetano bardo: um intervalo temporal e intermediário marcado por um início e um fim definido, basicamente entre o falecimento e o próximo renascimento. Bardo significa “entre” (“entre a vida e a morte”, “entre dormir e acordar”). Aprender a identificar os estados mentais que ocorrem durante o bardo da vida nos ajuda a diminuir a sensação de estranheza e mistério que em geral temos a respeito do que ocorre quando morremos, pois, nesse sentido, o estado pós-morte nada mais é do que uma intensificação do que passamos em vida. Na morte “corpo e a mente grosseiros” irão se separar, mas a “mente sutil” segue o seu processo contínuo – o problema não está em morrer, mas em saber direcionar a mente para um estado de continuidade positivo para o futuro renascimento. Assim, o budismo nos ensina a incluir a morte na vida: reconhecermos a natureza cíclica e contínua da existência de todos os fenômenos. Ou seja, ao abandonar a falsa sensação de permanência baseada no princípio de que “vou morrer um dia, mas não agora”, cultivamos uma sensação de urgência criativa, um profundo senso de responsabilidade e autoproteção diante da preciosa oportunidade de estarmos vivos e conscientes. Em outras palavras, a vida presente passa a ter um sentido mais amplo, pois não termina em si mesma.

Como podemos ajudar quem está morrendo?

A principal meta deve ser em ajudar o outro a ter um pensamento positivo em relação à partida. Temos que examinar o nosso relacionamento com a pessoa, mas não só: devemos colocar em pauta o nosso próprio medo de morrer, já que observar e elaborar abertamente os nossos medos nos ajuda no caminho para a maturidade. Cuidar de quem está morrendo é em si uma profunda contemplação, mas também uma reflexão intensa sobre a nossa própria morte – é um modo de afrontá-la.

Como o luto é encarado e vivido no Budismo?

Os lamas nos alertam que nos dias sucessivos à morte de um ente querido nós devemos, sobretudo, buscar enviar energia positiva para ele (assim como devemos evitar ter discussões que poderiam perturbá-lo). Durante 49 dias são feitas várias rezas e cerimônias – esse é o período em que o falecido se encontra no bardo. No Tibete as famílias fazem peregrinações a lugares sagrados, doações para projetos espirituais e se encontram com mestres para rezar (o maior consolo de um tibetano é saber que um mestre está rezando pelo seu parente). Todos os ensinamentos e práticas budistas são dedicados a aceitarmos as nossas perdas, uma vez que aprendemos a transformar a visão arraigada do conceito de permanência na capacidade de lidar com a contínua transformação de todos os fenômenos da vida. Ao fazer algo pela pessoa que faleceu damos um significado maior à sua morte.

Foto: Pixabay

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Quais palavras você ofereceria a alguém que acabou de sofrer uma perda muito grande? (mesmo que essa pessoa não seja budista).

O luto é um processo de choque: a dor inexorável de uma perda significativa. Meu maior conselho é que sejamos mediadores de nós mesmos. O budismo nos inspira a não aceitarmos nossas confusões, mas a irmos além delas. É preciso desvendá-las, explorá-las. Mas a dificuldade de aceitação vai depender muito de como foi a perda – de um modo geral, é muito mais difícil lidar com mortes súbitas, prematuras e violentas. Porém, temos que encará-las de frente, seja como for. Como diz Rachel Naomi Remen em seu livro As Bênçãos De Meu Avô: “A dor que não é sofrida transforma-se numa barreira entre nós e a vida. Quando não sofremos a dor, uma parte nossa fica presa ao passado.”

Sim, vamos sobreviver. Muitas vezes com ajuda daqueles que sabem nadar e estão dispostos a nos ajudar, mas só aprendemos a surfar as ondas da dor na medida em que aceitamos a nos relacionar com elas. Explico melhor: imagine que o grande sonho de sua vida é visitar o Egito. Por anos você estudou sobre o país até que chega o dia de poder visitá-lo, mas, quando está prestes a embarcar, chega a notícia de que o Egito está em estado de sítio, fechado para quem quer que seja. O que fazer? Seu tanque energético ainda está cheio de sonhos e expectativas, mas você não pode mais ir para o destino escolhido. Enfim, esse é o processo do luto: uma parte dessa energia acumulada intencionalmente terá de ser consumida direcionando-a criativamente para outro caminho.

O budismo nos instrui a ver a dor como dor, não como sofrimento. A dor é inevitável, mas o sofrimento de interpretar a dor como algo errado, desconfortável ou inadmissível, é, sim, opcional. Não devemos nos infligir sofrimento, interpretando a dor como punição, como nos dizendo: “Ah se seu não tivesse feito isso ou aquilo”. Creio que o melhor é aprendermos a encarar a realidade da perda enquanto ainda estamos ao lado de quem amamos. O luto antecipatório trata-se de uma fase onde se fica no “fio da navalha”, pois, por um lado, temos que nos preparar para a morte que se aproxima, mas, por outro, precisamos nos dedicar àquele que está morrendo com toda a nossa presença e atenção.

Você pratica a psicoterapia sob a perspectiva do Budismo Tibetano. É preciso ser um praticante para ter o seu acompanhamento?

Não há uma psicoterapia budista propriamente dita, formatada em conceitos e metodologias, mas sim na visão budista sobre os sofrimentos humanos e seus métodos de transformação. Não se trata em tornar o paciente um praticante, mas em compartilhar com ele os benefícios dessa filosofia como visão de vida. Os ensinamentos de Buddha são universais, pois lidam com a condição humana, com o sofrimento do nascer, envelhecer, adoecer, morrer e com as formas de superar esses sofrimentos. São, portanto, ensinamentos importantes para todas as culturas e religiões.

Pensando no tempo que estamos hoje, 2016, você acha que a sociedade (brasileira) está mais preparada para lidar com a morte? E o que o Budismo tem a contribuir com isso?

Sim e não. Há um crescente interesse sobre a área de cuidados paliativos e nos tratamentos de estresse e trauma, porém, ambos os temas ainda são um grande tabu. Maior ainda é a questão do suicídio, que por mais que seja negada, vem crescendo assustadoramente. O budismo nos ensina a não negar nada (seja a dor, seja a morte), mas a lidar diretamente com tudo. Ele nos ajuda a refletir com compaixão e sabedoria.

 

Livros sugeridos pela Bel:

Morrer não se improvisa

Bel Cesar / Editora Gaia

Esperança diante da morte – Preparando Espiritualmente a Partida

Christine Longaker / Editora Rocco

 O livro tibetano do viver e morrer 

Sogyal Rimpoche / Editora Talento

Vida e morte no budismo tibetano 

Chagdud Rimpoche / Paramita Editora

Quando tudo se desfaz 

Pema Chödrön / Editora Gryphus

Os lugares que nos assustam 

Pema Chödrön / Editora Sextante

Comece onde você está 

Pema Chödrön / Editora Sextante

Histórias que curam  

Rachel Remen Naomi / Editora Agora

Paciente como ser humano

Rachel Remen Naomi / Editora Summus

Bençãos do meu avô 

Rachel Remen Naomi / Editora Sextante

Um despertar gradual

Stephen Levine / Editora Pensamento

Meditações dirigidas

Stephen Levine / Editora Agora

A arte de morrer 

Marie de Hennezel e Jean-Yves Leloup / Editora Vozes

E a vida continua

Alexandra Kennedy / Editora Gente

Vivos no coração 

Alexandra Kennedy / Editora Pensamento

O Livro das Emoções

Ed Gaia / Bel Cesar

Mania de Sofrer

Ed Gaia / Bel Cesar

 

* Bel Cesar é psicóloga clínica com formação em musicoterapia no Instituto Orff em Salzburg, Áustria. Pratica a psicoterapia sob a perspectiva do Budismo Tibetano e dedica-se ao acompanhamento daqueles que enfrentam a morte desde 1990. Dedica-se ao tratamento do estresse traumático com o método de S.E.® – Somatic Experiencing(Experiência Somática), técnica especialmente empregadas no tratamento de transtorno de estresse pós-traumático, quadros de ansiedade, depressão e síndrome do pânico. Em 1987, organizou a primeira vinda de Lama Gangchen Rinpoche ao Brasil. Presidiu o Centro de Dharma da Paz por 16 anos. Desde 2004, em parceria com Peter Webb, desenvolve atividades de Ecopsicologia no Sítio Vida de Clara Luz, em Itapevi (São Paulo). É conselheira da Fundação Lama Gangchen para a Cultura de Paz. Elaborou o livro “Oráculo I Lung Ten”, compilando 108 predições de Lama Gangchen Rinpoche e outros mestres tibetanos. É também autora dos livros “Viagem Interior ao Tibete” e “Morrer não se improvisa”, “O livro das Emoções”, “Mania de Sofrer”, “ O sutil desequilíbrio do estresse” em parceria com o psiquiatra Dr. Sergio Klepacz e “O Grande Amor – um objetivo de vida” em parceria com Lama Michel Rinpoche. Todos editados pela Editora Gaia.

Fonte: http://vamosfalarsobreoluto.com.br/2016/01/09/o-luto-no-budismo/